Sou do tempo em que subir a serra depois das férias na praia não era apenas um momento de nostalgia por tudo o que tínhamos vivido, mas também uma ocasião que exigia preparação para evitar imprevistos na estrada.
O carro estava sempre cheio. Além da nossa família, os primos que vinham do interior passavam uma temporada conosco e voltavam juntos. A casa era fechada, as malas eram cuidadosamente acomodadas em todos os espaços possíveis e cada um ocupava seu lugar no veículo.
Mas havia uma parada obrigatória antes da viagem: o posto de combustível.
Ali acontecia um verdadeiro ritual. O abastecimento e a calibragem dos pneus eram seguidos pela verificação do óleo e da água do radiador. Naquela época, era comum encontrarmos carros parados no acostamento da serra por superaquecimento do motor, geralmente consequência da falta desses cuidados básicos.
Tenho certeza de que essa “paranoia” do meu pai teve seus resultados positivos. Nunca passamos por esse tipo de problema e a única sensação que restava durante a subida era a saudade dos dias especiais que havíamos vivido no litoral.
Uma Nova Tecnologia, Novas Preocupações
Muitos anos se passaram e hoje convivemos com uma nova realidade: os carros elétricos.
Imagino que, atualmente, uma das principais preocupações de quem retorna para casa seja verificar se a bateria está totalmente carregada. Afinal, ficar parado na estrada com toda a família dentro do carro continua sendo um grande transtorno.
Mas junto com essa tecnologia surgiu uma nova preocupação que tem chamado a atenção de proprietários, seguradoras e especialistas: os incêndios envolvendo veículos elétricos.
Isso não significa que incêndios em veículos a combustão não ocorram. Eles existem e sempre existiram. A diferença é que, estatisticamente, já conhecemos bem esse cenário. A frequência desse tipo de ocorrência é relativamente baixa e, ao longo dos anos, acumulamos experiência suficiente para compreender suas causas e consequências.
Na maioria das vezes, os incêndios em veículos a combustão estão associados a acidentes ocorridos em vias públicas, quando há comprometimento do sistema de combustível e posterior propagação do fogo.
O Desafio dos Incêndios em Garagens
Uma situação que tem gerado bastante discussão é o incêndio de um carro elétrico enquanto ele está estacionado em uma garagem e conectado ao sistema de recarga.
As características dessa tecnologia e dos componentes que a compõem já demonstraram que, quando ocorre um incêndio, o potencial de danos pode ser significativamente maior.
Diante desse cenário, surge uma questão importante: de quem é a responsabilidade pelos prejuízos causados?
O Que Determina a Responsabilidade?
Enquanto os incêndios em veículos convencionais já são relativamente conhecidos e estudados, os eventos envolvendo carros elétricos ainda representam um campo de aprendizado.
Cada ocorrência contribui para a construção de conhecimento, permitindo que fabricantes aprimorem seus processos produtivos e que o mercado desenvolva melhores práticas de utilização, armazenamento e manutenção. Isso inclui também a adequação das instalações elétricas utilizadas para a recarga desses veículos.
Em uma investigação de incêndio, o primeiro passo normalmente é identificar a origem da ocorrência.
É necessário determinar se o incêndio teve início na própria bateria, em razão de alguma alteração de suas características intrínsecas, ou se foi provocado por falhas no sistema de recarga.
Caso a origem esteja nas instalações de carregamento, a análise avança para identificar se houve, por exemplo:
- Subdimensionamento da instalação elétrica;
- Falhas de projeto ou execução;
- Problemas de manutenção;
- Oscilações ou anormalidades no fornecimento de energia elétrica.
Como as Seguradoras Têm Tratado Essas Situações?
De forma geral, as seguradoras têm analisado a origem do incêndio para determinar qual contrato de seguro será responsável pelo processo de indenização.
Essa definição impacta não apenas os danos sofridos pelo veículo, mas também os prejuízos causados ao seu entorno, como:
- Veículos estacionados nas proximidades;
- Estruturas da garagem;
- Instalações elétricas;
- Áreas comuns;
- O próprio imóvel.
Quando a origem do incêndio é atribuída à bateria do veículo, as seguradoras costumam enquadrar o evento dentro da apólice de seguro automóvel.
Por outro lado, quando a causa está relacionada às instalações elétricas ou até mesmo a uma falha no fornecimento de energia pela concessionária, normalmente o seguro do imóvel passa a ser o principal responsável pelas indenizações.
Nessa segunda hipótese, a concessionária de energia da região também poderá ser envolvida na apuração das responsabilidades.
Um Cenário em Constante Evolução
É importante destacar que essas interpretações representam o entendimento atualmente adotado pelo mercado, mas as condições específicas de cada seguradora e de cada contrato devem sempre ser analisadas individualmente.
Como estamos diante de uma tecnologia relativamente nova, ainda surgirão inúmeras variáveis, novos cenários e diferentes entendimentos jurídicos e técnicos. Por esse motivo, as avaliações e práticas adotadas hoje poderão ser revisadas e aperfeiçoadas ao longo do tempo.
O mais importante é compreender que a definição da responsabilidade em um incêndio envolvendo carros elétricos depende, antes de tudo, da identificação precisa da sua causa. Somente a partir dessa análise será possível determinar quais seguros serão acionados e quais partes poderão responder pelos danos causados.